Esquina em reparo

 

Caros,

no momento, por motivo de uma força maior que arruinou de vez meu computador, esta esquina está sem poder ser atualizada.
Espero, em breve, voltar a colocar algumas idéias aqui. Mas ainda não sei ao certo quando.
Até qualquer hora e tudo de melhor!

André



 Escrito por André Luís Câmara às 13h05
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Saboroso elogio de Silviano a Mário



Passada a folia de Momo (ninguém mais pode dizer que não há bom carnaval de rua no Rio), este sábado amanheceu pulsando instigante alegria com a entrevista de Silviano Santiago concedida a Rachel Bertol, para o Prosa & Verso de O Globo.

Analisando o panorama de pasmaceira crítica entre intelectuais brasileiros, o ensaísta e escritor afirma:

“Nunca me cansarei de elogiar Mário de Andrade (...) Num país de pasmaceira intelectual, por comodismo e parcimônia, por narcisismo e egoísmo, ele representa Eros, nos múltiplos sentidos gregos da expressão. Ele une a todos e é dessas uniões que nasce a extraordinária geração modernista. É um demônio (daimon), que nos guia e nos inspira até os dias de hoje. Eleva as emoções humanas ao nível cosmológico, vale dizer, ao nível artístico. Como Sócrates, Mário era ‘erotikos’...”

E Silviano salienta que Mário nos ensinou a estar sempre no meio do caminho entre o saber e a ignorância: “O intelectual que não tem sentido das suas deficiências não consegue desenvolver o amor pela sabedoria (philosophia)”, destaca.

Muito bom amanhecer com esse estímulo, esse sopro marioandradiano. Entre momentos de febre durante a noite, a procurar despistar uma gripe pós-carnaval, eu tinha exatamente mergulhado em leituras de Mário, principalmente seu magistral ensaio sobre Aleijadinho. E, durante o carnaval, à espera do desfile do Cacique de Ramos, na Avenida Rio Branco, eu me lembrara do poema Carnaval Carioca, de 1923.

E, depois de passar na bicicletaria para acertar a corrente da bicicleta do meu filho, chego em casa e tenho a surpresa de uma salada feita pela minha filha. E vamos os três fazer o resto do almoço e comemorar este sábado, mesmo chuvoso, mas entranhado de Mário e de seu carnaval, seu Brasil.

Vontade danada de dar um pulo em São Paulo e beijar minha amada! Nosso carnaval foi lindo! E logo chego lá, pra rever a Lopes Chaves e caminhar pela Vila Madalena.
Viva a esquina entre Rio e São Paulo! Viva Mário de Andrade, que mais uma vez me chama e me desafia a um trabalho maravilhoso.

Beijos, abraços e carinhos sem ter fim!


 Escrito por André Luís Câmara às 13h26
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Um bem danado

Pra Tatiana


Tarsila do Amaral



Não se assuste, não,
eu dou asas à imaginação do amor,
seja lá que engano for,
entre perdas e danos de ilusão,
pelos desvãos, no elevador,
na minha esquina assobio uma canção
e, catatônico, olhar de sonhador,
imagino que seguro sua mão
e traço a giz, lápis-de-cor
uma cidade de estranha dimensão
onde você me faz supor
que é hora de manter os pés no chão
e deslizar, ir ao sabor
do tempo que deixa pra lá a dor
e, sob o refletor,
Ipanema
e Vila Madalena
estão
nas asas da imaginação
do amor.

 Escrito por André Luís Câmara às 00h19
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Gullar, poeta da manhã mais vida!




Faz tempo que quero aqui colocar um texto sobre Ferreira Gullar, poeta que a cada dia aprendo a admirar mais e que só comecei, mesmo, a notar com alumbramento na maturidade (se é que maduro homem já sou, apesar dos tropeços).
Dele disse Sérgio Buarque de Holanda, em 1980: "...exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em A Rosa do Povo) é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje."
Transcrevo aqui um dos poemas do poeta maranhense de seu livro lançado em 1999, Muitas Vozes, e sobre o qual conversei ontem com amigos, entre goles de chope, numa mesa do Paz e Amor.


Extravio

(Ferreira Gullar)

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

 Escrito por André Luís Câmara às 00h00
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Tatiana



Este afeto é tátil,
mas requer tática também,
longe de ser fácil,
este afeto não avisa quando vem.

Em Copacabana bate
a onda do amanhecer do reveillon,
meio tatibitate,
vou adivinhando que este é um ano bom.

Tragédias se alastram,
meninos pedem dinheiro pra comer,
teus olhos embaraçam
meu olhar no verde de querer.

E eu assim tateio
este afeto prenhe de ilusão,
quase um devaneio,
teu sorriso gira em turbilhão.

Feito lenda lá do Tietê,
feito Taiti nas telas de Gauguin,
vou tateando o afeto por você,
Tatiana, olha o sol da manhã!



 Escrito por André Luís Câmara às 23h18
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Passeio paulistano


Rua Santo Antônio, Centro de São Paulo, em 1956
Arquivo Folha Imagem



São Paulo me engasga e me fascina
com seus encantos, com seus enganos,
ruas de Adoniran, Vanzolini, Rumo, Chico, Caetano,
a Paulicéia de Mário no contraste das esquinas!

A prosódia imigrante nas alamedas entoa
ruídos de louvor à grana e à garoa,
e aquela italiana da cantina
(sacana!) me domina.

Que lugar alucinado e que pulsa!
Quero vivê-lo mas antes irei ver
o Municipal, a alegoria da São João a entreter
os estilhaços desta saudade avulsa.



 Escrito por André Luís Câmara às 23h06
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Rabisco nos papéis

 
  Aldemir Martins

 

Contei de um a dez,

durante todo o mês,

tanto que, desta vez,

não estou mais a seus pés.

 

Filmes nas matinês,

rodas de samba em bar,

bebi pra não lembrar,

cantei Insensatez.

 

Invento algum lugar,

rabisco nos papéis

sonhos de cabarés,

viagens de além-mar.

 

Lua e estrela em anéis,

canções de Tom Jobim

se misturam a mim

e eu sigo de viés.

 

O ano está no fim,

outro ano há de passar,

eu vou acreditar,

vou rir de ser assim.

 

Esbarro meu olhar

na foto que me traz

os dias lá atrás

que eu hei de superar.

 

Onde se vende paz,

se cerze um coração?

Nas linhas da minha mão

eu li que “nunca mais”.

 

Daqui ao Dia de Reis,

depuro a solidão,

desmancho esta ilusão

- talvez!

 



 Escrito por André Luís Câmara às 15h25
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O Bloco de Natal


Portinari: Samba (1956)


Ajudei menos do que queria, talvez menos do que deveria, mas ali estava pra ver e contar:
o almoço que o pessoal do Bip-Bip serviu aos pobres que tinham fome, aos que não tinham o que comer no Natal, mesmo que digam que é só assistencialismo, tentativa de se livrar da grande culpa, digam o que quiserem, eu sei lá, sei é que eu ali estava pra contar que o samba vai além do canto, além do ritmo, além da forma, o samba é também trabalho e festa, ao mesmo tempo, reunião de solidariedade servindo a quem tem fome e vagueia em vão pela cidade, mas o pessoal do Bip-Bip, com Alfredinho à frente, claro, e o apoio de cozinheiros camaradas, serviu centenas de pratos e quentinhas, em troca de nada, quando muito de um sorriso, um muito obrigado, sei lá, sei é que eu ali estava pra ver e contar que o Bip-Bip além de bar, além de casa é ação de alegria e entusiasmo, idéia-semente de um bloco de natal sem instrumentos, sem cerveja, mas é todo um samba que embriaga de tanta lucidez, que é a clareza de agir, mesmo que digam que é pouco, mesmo que a intenção se dilua, sei lá, sei que ali estava pra ver e contar: o Bloco de Natal do Bip-Bip fez um carnaval maravilhoso, inesquecível, com arroz, frango, farofa, rabanada e guaraná. Ô Alfredo, pede silêncio que agora é hora de cantar! Um beijo!


 Escrito por André Luís Câmara às 11h49
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André da Esquina saúda 2005 e pede passagem!


Flagrante de André da Esquina clicado por Eric Michelucci,
com retoque caprichado de Leonardo Bruno




Caríssimos,

bom demais poder chegar aqui nesta esquina e abraçar vocês. Tudo há de continuar como está e tudo também há de mudar. Depende mesmo é do nosso modo de olhar e agir. Afinal, a vida é a arte de enxergar.
Quando morava no Hotel Santa Tereza, costumava descer a pé até o centro da cidade, pro trabalho, e ia pensando num poema de Manuel Bandeira que era quase uma oração diária pra mim.
Por isso aqui quero partilhá-lo com vocês a quem desejo tudo de melhor. Em 2005 farei 40 anos. Terei mais cabelos grisalhos e, espero, rugas pelo que tenho vivido, sofrido, amado, cantado, sorrido, experimentado. Que sempre é tempo pra se reinventar o novo e insistir no sol da manhã. Mas é preciso ter prudência pra aceitar as manhãs de chuva, claro.
E, como Bandeira, eu quero e preciso de lua nova.
Beijos abraço e carinhos sem ter fim.



Lua Nova
(Manuel Bandeira)

Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia.
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu quero,
O de que preciso
É de lua nova.



 Escrito por André Luís Câmara às 11h36
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Toque aquela canção



Vou site em site, blog em blog,
tonto de desencontros e procuras,
ainda na ilusão de que costuras
a separação, mas, por entre o fog,
um avião já vai partir,
se abrem abismos e fico a ouvir
aquela canção que diz
"you must remember this..."



 Escrito por André Luís Câmara às 03h01
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Três meses de esquina




Mondrian

Esta esquina está completando, hoje, três meses. De setembro pra cá, você, que por aqui passa, lê, observa, comenta, foi se tornando imprescindível pro meu dia, pra minha vida. Espero poder sempre aqui oferecer qualquer coisa que possa lhe despertar emoções, idéias, encantamento.
Nem sempre tem sido possível manter distância de sentimentos mais passionais, de subjetivismos, quem sabe, inúteis. Mas, cada vez mais, irei procurar chegar a você, leitor e amigo, parceiro, interlocutor, supostamente vitual mas concreto na construção de meu olhar sobre a vida.
Eu amo esta esquina e adoro saber que por aqui passam pessoas especiais e importantes pra mim como você.
Só pra comemorar, reproduzo abaixo o texto que inaugurou este blog, renovando o convite pra que você participe comigo de sonhos e idéias.
Viva esta esquina! Saravá! Beijos e abraços e carinhos sem ter fim!


Convite para uma esquina
(Originalmente postado em 12/09/2004)


Eu quero interferir na sua vida. Sem o blá-blá-blá eleitoreiro, sem promessa de nada, sem Igreja alguma. Ou talvez até com tudo isso.
Já quis me definir como escritor, mas tenho feito pouco, muito pouco pra me reconhecer como tal.
Peguei um ônibus na madrugada que tinha um sanfoneiro tocando. Bala perdida em volta, o cinismo, a guerra, a competitividade, o desencontro. E o sanfoneiro tocando e sorrindo. Pedi pra ele Que nem Jiló, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. E lembrei que o remédio é mesmo cantar.
Quero reunir gente numa esquina. Não sei ainda onde nem como será. Sei que é uma esquina pra onde estou indo agora, levando Macunaíma e A meditação sobre o Tietê.
Não tenho a menor vontade de me perder na nostalgia, na melancolia por um passado que me asfixie. Quero redescobrir o tempo. Romântico, sem saber lidar com o dinheiro, neurótico e até infantil. Mas já tenho cicatrizes, cabelos brancos, amores desfeitos, dois filhos lindos, um recente encantamento pela Tijuca e nada a oferecer além de uma paixão às vezes inútil e uma obstinação em reafirmar o compromisso com o sonho.
Sou eu assim, mas não vou estagnar. Gostaria de encontrar com você nesta esquina e celebrar a arte do encontro. Se vai ser através da internet, de cartas, de bares, sei lá.
Sei que há uma esquina e amanhã estarei morto. Antes, porém, devo a mim mesmo esse encontro.
Se você tem vontade de passar por esta esquina, me avise.
Não vamos nos perder em exercícios de ironia. Vamos, antes, procurar afinidades e o entusiasmo de continuar a acreditar na beleza.
Quero me vestir de futuro do presente num gesto infinitivamente pessoal. Mas ser para e com o outro, reiventando um espetáculo de gratuidade.
Já me frustrei demais com expectativas idealizadas. Quero agora arcar com as conseqüências do risco, conviver com o erro. Experimentar!
Estou indo pra esquina e levo Macunaíma.
Um excelente dia pra você. Viva a vida! Viva o Brasil!
Queria mesmo interferir no seu caminho. Estou numa encruzilhada em que passa tudo isso de que falam os jornais, mas tem também um sanfoneiro que toca Que nem jiló. O remédio é cantar.
O Rio hoje amanheceu cantando. Dentro de poucos dias virá a primavera.
Eu estarei na esquina com Macunaíma e a alegria de readquirir a potência de engravidar o instante.
Beijos e abraços e carinhos sem ter fim!






 Escrito por André Luís Câmara às 15h24
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Engravidando o instante


Hélio Oiticica

 

Há muitas coisas de que gostaria de falar, há o show maravilhoso de Bethânia que vi semanas atrás e sobre o qual nada ainda escrevi, também o show de lançamento do CD do Dobrando a Esquina, bonito, o momento inesquecível de estar no Trem do Samba, rumo a Oswaldo Cruz, o impacto diante da beleza das esculturas de Mario Ferrer, que me recebeu tão gentilmente em sua casa na Urca, os amigos tão maravilhosos que as esquinas ainda propiciam encontrar, o trabalho voluntário de gente que faz a alegria de crianças carentes, como os Amigos da Chácara Girassol, cujo link se encontra no canto direito deste blog, o empenho de freqüentadores do Bip-Bip para levar adiante o apoio a projetos sociais, arrecadando e distribuindo alimentos e roupas, e tanto mais pra falar sobre o espetáculo da vida, entre luzes e sombras, mas eu tenho dormido pouco,  e com o verso mesmo assim torto, olho o mar de Copacabana, escuto o choro que amigos meus tocam e penso que, por mais que se tente ser infeliz nesta cidade, é impossível, é improvável morrer sem engravidar um instante de felicidade.



 Escrito por André Luís Câmara às 13h32
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Ela tem anjo no nome

Para Paulo Castro, que me fez notar o anjo no nome, e Flávio Feitosa, que chamou minha atenção para a navalha na cicatriz


Kandinski


Ela tem anjo no nome, repara,
e, mesmo se negares o que sentes,
dicas de se manter indiferente
não fazem esquecer, está na cara.

Mas se é hora de aceitar que acabara
o amor engasgado e tão renitente,
deixa apenas que o tempo leve em frente
a vida, enquanto o coração não pára.

E se por ela ainda tu te guardas
de poder gozar um dia feliz,
sai por aí, beija, fode, que tardas

em saber o que a vida tem de atriz
para, em vão, impedir que brilhe e arda
este sol: navalha na cicatriz.

 Escrito por André Luís Câmara às 16h19
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Poema inútil



Robert Doisneau


Os versos que agora me perturbam
saem como cusparadas de sangue.
Se fosse somente febre o que sinto,
bastava-me uma aspirina.
Se fosse somente cansaço o que tenho,
bastava-me uma noite de sono.
Mas não me vem o sono nem me passa a febre.
Estou sozinho de frio e vacilo em continuar esta bobagem de poema.
Eu apenas caí de quatro por ela.
Talvez minha paixão a tenha assustado .
Se foram poucos os momentos foram bons,
se foram inesperadas minhas palavras foram as mais sinceras,
se foi minha idealização ou fantasia foi porque quis correr o risco.
Estou hoje à deriva nesta ansiedade.
Sinto-me mais exposto a tudo e a todos
do que artigo de liquidação em vitrine.
Ela teve medo de que eu a amasse,
sabia que seria difícil conter nela minha paixão.
Mas como não amar sua risada?
Como não amar seus cabelos ao vento?
Como não amar suas mãos nas minhas
pelas ruas da Gávea, da Tijuca, do Humaitá e de Santa Teresa?
Como não amar-lhe a bunda, os seios,
a dobra do pescoço e dos joelhos,
a pinta entre a coxa e a púbis?
E aquela tatuagem...
Ah! saudade de vê-la com sua blusa de seda, sua saia indiana,
seu chapéu comprado num brechó, sua sandália, seu perfume, seus anéis.
O sabor de seu sexo molhou minha boca e a vida!
Preciso da lírica de Camões
dos poemas de amor de Neruda
das elegias e sonetos de Vinícius.
Preciso dizer que a amo.
Ou melhor seria dizer, a esta hora, que a amei?
Por mais breve que a tenha conhecido,
por mais nada que dela saiba.
Amei-a como já me julgasse incapaz.
Amei-a com gosto de manhã.
Com todos os perigos das ruas de hoje em dia.
Com toda a miséria humana de um mundo atormentado.
Com toda a sibarita de menino e professora.

E eu a vi
esfriar
nublar
escorrer
sumir
em silêncio

Talvez queira ela encontrar-me,
talvez queira um sei lá que não entendo
ou talvez entenda mas já não suporte.
E fico com uma dor que retalha e me descompensa, insuperável.
Agora explico minha tristeza para o patrão,
minha angústia para quem me encontra na esquina.
O meu amor teve pipoca e chocolate.
Foi como primeiro amor que não se esquece
mas chegou só depois de outros que já tive.
Foi amor de mais ninguém amar.
E se para ela outro ou outra houve
capaz de amar-lhe um amor desses,
então que se organizem mil festas,
que se decrete feriado internacional,
que se dê graças aos Céus, se Deus houver,
e se não houver que se invente
o mais temido, poderoso e iluminado deus
para abençoar essa mulher confusa e frágil,
que teve amores como o meu que,
na solidão do abandono,
ingênuo pensei que fosse eterno.
Eu me alegro por tê-la beijado e envolvido!
Eu me alegro, ainda que tenha me estrepado
e me assalte de súbito esta impotência, esta desolação.
Ela é bonita e seu abraço tem a textura mais aconchegante.
Estou sofrendo desesperadamente mas me alegro
por ter amado uma mulher ardente assim.
Deste meu desconforto afetivo,
eu a saúdo, embora quase a maldiga.
Se agora é realmente feliz, que o seja!
Mas seja sabendo de toda ternura e voragem
de minha carícia e de meu agrado,
de meu receio de falar-lhe o que talvez ela tivesse gostado de ouvir,
da vontade de que os dias fossem mais leves,
dos boleros pra ela que escondi de meu ridículo,
do meu desalento, minha falta de tato,
minha candura desmanchada em saudade,
minha hesitação, minha dúvida, meu coração ainda rasgado,
que saiba, enfim, do que nem vale a pena
e que, pra ela, finjo nunca mais dizer.



 Escrito por André Luís Câmara às 11h36
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No Dia do Samba

Pensando no som de Luiz Eça


Di Cavalcanti: Baile Popular

Num dezembro nublado,
às cinco da tarde,
num instante de tédio, desconcertado,
no vazio da caixa de mensagens,
eu insisto no samba e no abraço,
eu prossigo no samba, aos pedaços,
e na cabeça uma música: Imagem.

 

 



 Escrito por André Luís Câmara às 16h41
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