Gullar, poeta da manhã mais vida!

Faz tempo que quero aqui colocar um texto sobre Ferreira Gullar, poeta que a cada dia aprendo a admirar mais e que só comecei, mesmo, a notar com alumbramento na maturidade (se é que maduro homem já sou, apesar dos tropeços). Dele disse Sérgio Buarque de Holanda, em 1980: "...exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em A Rosa do Povo) é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje." Transcrevo aqui um dos poemas do poeta maranhense de seu livro lançado em 1999, Muitas Vozes, e sobre o qual conversei ontem com amigos, entre goles de chope, numa mesa do Paz e Amor.
Extravio
(Ferreira Gullar)
Onde começo, onde acabo, se o que está fora está dentro como num círculo cuja periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas, nas pessoas, nas gavetas: de repente encontro ali partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens: vejo do alto a cidade e em cada esquina um menino, que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo. Onde estarão meus pedaços? Muito se foi com os amigos que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos, em seu corpo, em seu olfato, onde durmo feito aroma ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente: esta manhã, esta sala.
Escrito por André Luís Câmara às 00h00
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