A gente tem que se divertir


Mondrian


“A gente tem que se divertir”. A frase soaria como lugar-comum não tivesse sido dita por ele naquela manhã de sábado no final de 1990, a caminho da Casa França-Brasil, onde iria ser encenada a primeira de suas Farras de Atores. Eu, seu amigo e assistente, tantos anos mais novo, tão mais inexperiente, tão ainda por aprender muito sobre angústia e dor de amor, seguia ao seu lado, de carona. Pouco tempo depois ele iria morrer, aos 47 anos. E aquela imagem, aquela frase tomaria um significado muito especial pra mim.
Que saudade de Márcio Vianna! De seu teatro (Confessional, Vincent, Marat Marat, Circo da Solidão, O futuro dura muito tempo, Meu pai voa), de sua vontade de se superar, de não sucumbir à caretice, aos padrões.
Lembrei demais dele agora, não sei se pela tarde nublada, não sei se pelo abraço terno de tantos amigos, ainda que por e-mail ou em comentários no blog, mas que me estimulam com suas palavras generosas, repletas de afeto. Amigos que fazem lembrar amigos. Saudade danada de Márcio Vianna, que adorava Nana Caymmi, adorava ir às segundas-feiras ao Real Astoria, no Baixo Leblon, adorava pizza de muzzarella com tomate, adorava sorvete de creme. Márcio, que sabia o que era escorregar nas paixões. Mas também sabia cuidar da vida prática, diretor jurídico de multinacional desde os 27 anos de idade. Márcio, a quem até hoje devo dinheiro, que ele me emprestou dois meses antes de morrer com um tumor na cabeça, enquanto planejava uma homenagem ao grande Rubens Correa, com quem encenara a premiada peça O futuro dura muito tempo, e que havia morrido no mês anterior.
Lembrei muito dele ao descobrir o site Mulheres que amo, inteiramente dedicado à poesia escrita por mulheres (http:www.utopia.com.br/poesia). Márcio era impressionado com o texto de muitas mulheres e me lembro de vê-lo preparando um evento somente com textos escritos por mulheres.
Quando atravessava períodos de crise, tomava remédio pra úlcera e bebia cerveja, muita. Mas também gostava de um uísque. E fotografava, fotografava lindamente.
Logo após sua morte, escrevi um poema que retrabalhei ao longo dos anos. É uma grande alegria saber que a vida nos reserva esses momentos de encontros maravilhosos, de afinidades, de amizades. Uma alegria que acaba doendo. E, no fim, o mais certo é mesmo que “a gente tem que se divertir”.


A um experimentador de angústias

À memória de Márcio Vianna

Meu amigo morto, vou ler Artaud, Cioran e Borges
na sua ausência sem propósito,
penso em conversas nossas (improváveis?)
e a gente tem que se divertir e desconstruir o óbvio.

Meu amigo morto é estranho,
me corta em dor a dor que ainda sangra,
enquanto escuto Nana Caymmi cantando
e sei que este adeus nada adianta.

Meu amigo, morto, não entendo,
tinha tanto espanto no velório,
e eu, atrasado, fitei o caixão já fechado,
seu recurso de cena mais mórbido.

Meu amigo morto despia mitos,
no Circo da Solidão deixara exposta a úlcera,
queria emocionar, questionador, intuitivo,
para sempre experimental, para sempre sua angústia.


 Escrito por André Luís Câmara às 13h32
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O estrago do romantismo


Ismael Nery, Auto-Retrato


É possível que a culpa tenha sido mesmo de Goethe, ao publicar Os sofrimentos do jovem Werther, no século 18, desencadeando aquela já conhecida onda de suicídios com que se inaugurou o romantismo.


O estrago causado pelos românticos parece ter sido tamanho, que, em 1940, Sergio Buarque de Holanda assinava artigo na imprensa afirmando ser, como tantos de sua geração, um romântico, apesar de, ele mesmo, ter sido ativo participante do modernismo, como crítico atento.


É provável que, no Brasil, a tentativa de escapar ao sentimentalismo tenha se dado realmente com João Cabral de Melo Neto. Enquanto ele conduzia sua poesia para fora dos grilhões do saudosismo, a música popular ia se firmando como uma das mais elaboradas expressões de lirismo. Certo, nem sempre tão elaborada assim, a notar o que depois se convencionou chamar de estilo brega. Mas me inquieto em estabelecer uma possibilidade de diálogo entre João Cabral e esse lirismo que ele mesmo parecia repelir.


Formas diferentes de falar sobre a mulher, o desejo, o amor estão em poemas seus como o belo A mulher e a casa ou o inesquecível Paisagem ao telefone.


No entanto, creio que um caminho para se repensar toda a nossa expressão lírica esteja no extraordinário Os três mal-amados, concebido a partir da idéia de Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. E, pensando na esquina que pode haver entre os mal-amados e Werther, entre João Cabral e Goethe, eu sigo por entre a neblina desta manhã cantarolando um bolero de Carlinhos Vergueiro e Chico Buarque:

Nosso Bolero
(Carlinhos Vergueiro/Chico Buarque)

Jogamos nosso bolero
Na ronda dos oceanos
A vida vem como em ondas
Dizia nosso poeta
Nossa canção incompleta
Pode esperar vinte anos
O amor faz ondas redondas
Até quebrar como eu quero

Como o meu jeito de amar se ajeitava com você
Louco, eu não imaginava uma noite sem você
Como é sincero poder
Querer os pulsos cortar
Como é bolero chegar
E perder a coragem
Foi tão bonito você me emprestar a vida assim
Ver que eu não tinha saída e seguir por onde eu vim
Como eu adoro você
Quando você me sorri
Quando sabemos que aqui
Termina nossa viagem


 Escrito por André Luís Câmara às 10h21
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O caos e o sentido


Imagem: www.jhendrix.net/girlsinboots/cinebrasil/peixoto/htm


Era preciso este tempo passado
sem que eu mesmo desse conta
de um soluço atravessado na mudez,
de meu esforço acumulado em mágoa.

Era preciso este tempo tanto
nos meus pelos mais brancos e ralos,
primeiros sinais do outono
da meninice de minha desolação.

Era preciso este tempo atrás
de anos em que sobrevivi aos trancos,
me lançando à sombra de pequenas verdades,
errando pelos caminhos do afeto.

Era preciso este tempo que nada
pode remover de meus olhos sem espanto,
de minha placidez para com o caos,
meu delírio em segredo, minha margem oculta.



 Escrito por André Luís Câmara às 03h48
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