Dentro de casa




Modigliani


Teve vontade de ir à Lagoa, ver o show de João Donato e Yamandu Costa, com participação do Conversa de Cordas. A música seria das melhores, certamente. Um espetáculo ao ar livre que é tão a cara do Rio, como os shows que aconteciam no Parque da Catumba na década de 1980 ou os que são realizados hoje na orla.
João Donato, um músico primoroso, um compositor que, quando se descobre, é admiração na certa. Yamandu, violonista virtuoso, também compositor que começa a despontar com melodias muito bonitas. E o Conversa de Cordas, conjunto que conta com o tecladista Marcos Souza, também compositor dos melhores, responsável pela trilha sonora do recente documentário sobre o fotógrafo Evandro Teixeira.
E ele pensou em sair andando até lá, talvez encontrasse gente conhecida ou, simplesmente, ficaria curtindo aquele instante que o Rio lhe dava de presente.
Mas o corpo pediu um tempo. Havia trabalhado intensamente a semana inteira. Andava ansioso, esperando por respostas de e-mails, navegando pelo Orkut, fazendo o máximo para manter seu blog atualizado. E a idéia de ir mais cedo pra cama, acompanhar-se de um livro, espreguiçar e se sentir em casa pareceu que era a melhor coisa a fazer.
Afinal, até que era feliz de já ter visto, ao vivo, shows de João Donato, de Yamandu e do Conversa de Cordas. Tinha passado, naquele sábado, pelo Choro na Feira, em Laranjeiras, e estava ótimo. Mas certo cansaço já o conduzira logo pra casa, e preparara seu almoço às cinco da tarde, ainda pensando em ir à Lagoa. Agora estava decidido a se deixar ficar. Era hora de se fortalecer. Uma espécie de purificação para iniciar o Tai-Chi dali a três dias.
O coração estava ótimo. Pelo menos, foi o que o médico lhe disse ao verificar o eletrocardiograma. Pela manhã tivera uma emoção singular ao ver os filhos, de dez e nove anos, serem homenageados na escola por suas redações. Os dois. O tema era sobre a fome. Quer dizer, não tinha dinheiro, bens, grandes perspectivas de futuro, mas tinha dois filhos que se interessavam em escrever e já estavam sendo reconhecidos por isso. Vai ver, a vida valeria mesmo a pena.
Em São Paulo, uma série de eventos lembrava os cinqüenta anos sem Oswald de Andrade, um poeta da radicalidade, segundo Haroldo de Campos. E também havia leituras de peças de Oduvaldo Vianna Filho, morto há trinta anos, e por quem ele ainda devotava especial carinho, como na época em que escrevera um artigo sobre o autor de Rasga Coração, publicado em O Pasquim, em 1985. Além disso, os jornais falavam da ausência de vinte anos de François Truffaut, tão sempre associado ao amor pelas mulheres, pelo inconformismo, pelo lirismo. Como ele amava os filmes de Truffaut. Ainda na adolescência assistira, encantado, à estréia de Amor em Fuga. Depois, foi descobrir Os Incompreendidos, Jules e Jin e ... não poderia ser considerado um cinéfilo. Ia cada vez menos ao cinema. Mas amava Truffaut.
Tantas perdas, tanto passado, mas não se tratava de reverenciar apenas quem já não estava vivo. Era só a coincidência daqueles dias em que personagens importantes cruzavam a esquina de suas memórias, de suas idéias adormecidas.
Agora queria se sentir em casa ali no Posto 6, próximo ao local onde morara o poeta que, em 1982, lhe enviara uma carta na qual dizia: "O abraço cordial e os votos de uma bela afirmação literária, de seu vizinho Carlos Drummond de Andrade". Vinte e dois anos se tinham passado. O que aquelas palavras significavam agora para o homem de 39 anos de idade era o que ele tinha que começar a responder.


 Escrito por André Luís Câmara às 21h41
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A língua é minha pátria e eu quero frátria




Embora ausentes das cenas, Cesaria Evora, Clementina de Jesus, João da Baiana, Pixinguinha, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Eça de Queiroz, e muitos mais, estão todos lá, no documentário, de Victor Lopes, Língua-vidas em português, exibido em pré-estréia, nesta noite, no Cine Odeon, na Cinelândia.
O público, que lotou o charmoso cinema, aplaudiu os vendedores de bala nos ônibus do Rio, o adolescente moçambicano que sonha com uma vida melhor nos Estados Unidos, o casal de africanos que sente prazer em levar uma vida divertida fora dos padrões da moda, os restaurantes e bares brasileiros em Tóquio, a tradição da música portuguesa em Goa, o ritmo de Martinho da Vila, a harmonia do Madredeus, o papo saboroso de João Ubaldo Ribeiro, o brilhantismo de José Saramago, tudo isso está lá. Além da participação inesquecível desse que há de se firmar como um dos grandes nomes da língua portuguesa: o moçambicano Mia Couto. Sim, sei, há os que já o conhecem e apreciam, mas é um nome até agora menos em evidência. O filme nos dá uma vontade grande de dialogar com Mia, de saber mais sobre seu mundo, seus escritos e de nos reconhecermos nele.
Lançado vinte anos atrás, o rap Língua, de Caetano Veloso, bem poderia soar hoje como um argumento para o desenvolvimento do roteiro. Mas não há qualquer relação direta entre um e outro. Como também se poderia pensar em livros como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre. Temas que estão latentes na formação da língua que vivemos.
Poderia contar mais sobre o filme, mas não ia ter graça. É possível que alguns opinem que se trata de um documentário por vezes cansativo. Realmente, o filme corre esse risco pela vastidão do material recolhido, pela pluralidade do que tem a mostrar. Talvez não faça o sucesso de um Buena Vista Social Club, mas a época de repensar a nacionalidade, o fortalecimento das culturas, o abalo de hegemonias político-econômicas e a busca de identificações talvez ofereçam um pano de fundo luminoso para as questões que o filme reúne, numa montagem que costura continentes, mares, diferenças e afeições. Imperdível!


 Escrito por André Luís Câmara às 01h30
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Risco de poeta


Vincent


Ser poeta é correr riscos
entre a pieguice e a concisão,
entre o óbvio e o implícito,
entre o gozo e a vida em vão.


Nos garranchos, que rabisco
por falta de um violão,
ser poeta é quase um vício (ofício?)
a me enredar na solidão.


 


 


 



 Escrito por André Luís Câmara às 14h31
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Manuscritos de Adélia Prado




Di Cavalcanti


“Mulher é desdobrável.” Parece ser este verso bastante revelador e até tradutor do que deseja dizer Adélia Prado também em sua prosa. Tanto no primeiro poema de Bagagem (Com licença poética), onde está o verso citado, até Manuscritos de Felipa, seu romance mais recente, a autora parece afirmar uma trajetória deliberadamente pontuada por referências ao que se convencionou chamar de uma literatura feminina.
Ainda que se argumente que poderia haver uma literatura escrita por mulheres e uma literatura escrita por homens, o caso aqui parece mesmo ser, propositalmente, o de uma mulher que fala, percebe, enxerga através de uma vertente feminina.
Desde Solte os cachorros, seu primeiro salto no trampolim da prosa, a escritora assume uma verborragia própria do esteriótipo histérico que transporta o leitor rapidamente à idéia freudiana da cura pela palavra, como num dos casos relatados por Freud em Cinco lições de psicanálise.
Maria Rita Kehl, em Deslocamentos do Feminino, aponta que, ao escrever Madame Bovary, Gustave Flaubert criou “o retrato da feminilidade ao modo burguês; a mesma feminilidade que entrou em crise no século XIX e produziu a histeria como modo dominante de expressão de sofrimento psíquico. ‘A histeria é a salvação das mulheres’, escreveu Dostoievski num trecho de Os irmãos Karamázovi. ‘Nós, surrealistas, fazemos questão de celebrar aqui o cinqüentenário da histeria, a maior descoberta poética do século XIX’, escreveu mais tarde André Breton em um dos seus manifestos, elevando a sintomatologia histérica à qualidade de uma ‘forma de expressão’.
Seriam as personagens de Adélia Prado a mesma personagem que vai com ela envelhecendo ou ela estaria recriando modos de dizer sempre a mesma história?
Manuscritos de Felipa, escrito a princípio como parte de uma série de crônicas publicadas pela autora no jornal Correio Braziliense, traz uma forma mais contida, em diversos capítulos pequenos, mas que talvez pudessem estar também colados dentro de uma narrativa que sugerisse a impressão de ser um jorro só.
Adélia Prado brinca bastante com o fato da literatura feminina ser alvo de dúvidas quanto a ter uma seriedade literária, uma importância cultural. Em Manuscritos de Felipa isso está desafiadoramente colocado no trecho do capítulo XXIX, em que ela se refere a um ícone da literatura feminina no Brasil: Clarice Lispector. “Estou cheia de amor, por isso não excluo essa palavra excrescente, armário maior que o cômodo. Agora imitei a Lispector. Meu aperto é que urge ser eu mesma, não posso ficar imitando, ainda que enquanto humanos somos um só, senão como ia entender livro dela que parece tudo, menos livro?”
As personagens de Adélia estão prontas a carregar sua cruz, mas se mostram constantemente aptas a descobrir, como no poema que abre Bagagem, que são desdobráveis.
Católica praticante, a autora amarra a experiência literária à experiência religiosa e, como numa entrevista que concedeu ao Estado de S. Paulo, em 1999, diz que são a mesma coisa. “A poesia é um fenômeno de natureza religiosa, pois tem um papel fundador, que me conecta ao centro do ser”, afirmou ao jornalista e escritor José Castello.
Pela boca de Felipa ela afirma: “Deus quer me ver cantando a dor do mundo...”



 Escrito por André Luís Câmara às 01h50
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