Na esquina com Murilo



Guignard/ Retrato de Murilo Mendes

Eis que de novo posso ouvir música em casa, agora tenho caixas (caixinhas) de som no computador. Hora de tirar o lacre dos CDs de Mônica Salmaso e Marcos Souza, acessar o blog de Ana Flora e escutar todas aquelas canções. Nesta esquina, enquanto me chegam rumores da madrugada por onde rodam os vigias da noite, putas e travestis, e os sobressaltos pela violência contagiam e os que têm ânsia de se divertir procuram se sentir mais soltos, volto a poder ficar nu com minha música.
Ainda há pouco, vivia num quarto que dava pro pátio de uma igreja e todas as manhãs acordava com as badaladas de um sino. Agora percebo os garis pela rua escura, os desejos adormecidos a esta hora, outros que se reacendem e saem à procura sabe-se lá do que...
Se eu fumasse, talvez me sentisse completo.
Faz hoje exatamente um mês que escrevi um texto propondo a criação desta esquina virtual que acabou dias depois por se consumar num blog. E eu vou também me embrenhando pelos becos do orkut. Mas a comunicação pela internet parece que às vezes gera um vazio maior. No fundo, qualquer comunicar-se sempre há de ter os seus ruídos, suas ausências, seus silêncios, para sempre recolocar-se de forma mais ativa e presente. Ou, quem sabe, diluir-se por entre a fadiga das inutilidades do exercício cotidiano.
É certo que, quando nada há a dizer de muito interessante, melhor buscar as palavras de um poeta que se ama. E por isso trago a esta esquina Murilo Mendes e esta pérola que se chama Mapa. Gostaria que você lesse estes versos:

MAPA

Murilo Mendes

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.

Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...

Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...

Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nehuma teoria,

estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da Praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.



 Escrito por André Luís Câmara às 00h31
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