Porque hoje é sábado!

E porque hoje é sábado, dia que combina com feijoada, dia que combina com um samba de Vinícius, eu bem que queria reunir uns amigos pra ver mais uma vez Todas as mulheres do mundo, um clássico de Domingos de Oliveira, filmado em 1966, e que tem Leila Diniz (foto) e Paulo José em momentos absolutamente inesquecíveis. E Flavio Migiaccio também. E Joana Fonn. E Isabel Ribeiro. Um filme que eu amo! Mas como minha filha (tenho uma menina e um menino) se sentiu indisposta e eu acabei por ter que ir à farmácia e me vejo agora aqui com a carne no forno (o que eu sei mesmo cozinhar, e olhe lá, é uma maminha no sal grosso) enquanto ela dorme e o meu outro filho procura se desfazer do tédio jogando enquanto a chuva não passa, eu vou lendo na cozinha uns poemas. Mas fico atento pra comida não queimar. E meus filhos vão crescendo. Depois, a noite vem chegando. Na TV, o Quarteto em Cy apresenta Sabiá, de Tom e Chico. Eu acho que quase meus olhos marejam, porque as crianças me perguntam se estou com saudades de algúem. E eu respondo que sim, sinto saudades de mim. Não de mim criança ou mais jovem , mas de mim, em qualquer tempo ou espaço. Eles parecem não entender. Quase ensaiam querer brincar que não gostam de Tom e Chico, mas acabam silenciando e quase comungam comigo um instante de entendimento. Um dia, talvez, quando estiverem (Deus queira que sim!) com a vida ganha, as contas em dia, o amor companheiro, consigam ter a disponibilidade para o instante de ouvir Sabiá e se emocionar sem satisfação a ninguém. Mas porque hoje é sábado (nesta cidade acontece o maior festival de cinema. Maravilhoso!), e se fala aqui de Tom e Chico, e é dia de ouvir um samba de Vinícius, eu convido meus amigos desta Esquina a curtirem comigo uma receita de feijoada. E não vale dizer que é melhor fazer regime ou evitar gordura, etc. Salve o sábado. Salve o samba. Salve a amizade. Saravá!
Feijoada à Minha Moda
Vinicius de Moraes
Amiga Helena Sangirardi Conforme um dia prometi Onde, confesso que esqueci E embora – perdoe – tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta Segundo manda a boa ética Envia-lhe a receita (poética) De sua feijoada completa.
Em atenção ao adiantado Da hora em que abrimos o olho O feijão deve, já catado Nos esperar, feliz, de molho.
E a cozinheira, por respeito À nossa mestria na arte Já deve ter tacado peito E preparado e posto à parte
Os elementos componentes De um saboroso refogado Tais: cebolas, tomates, dentes De alho – e o que mais for azado
Tudo picado desde cedo De feição a sempre evitar Qualquer contato mais... vulgar Às nossas nobres mãos de aedo
Enquanto nós, a dar uns toques No que não nos seja a contento Vigiaremos o cozimento Tomando o nosso uísque on the rocks.
Uma vez cozido o feijão (Umas quatro horas, fogo médio) Nós, bocejando o nosso tédio Nos chegaremos ao fogão
E em elegante curvatura: Um pé adiante e o braço às costas Provaremos a rica negrura Por onde devem boiar postas
De carne-seca suculenta Gordos paios, nédio toucinho (Nunca orelhas de bacorinho Que a tornam em excesso opulenta!)
E – atenção! – segredo modesto Mas meu, no tocante à feijoada: Uma língua fresca pelada Posta a cozer com todo o resto.
Feito o quê, retire-se caroço Bastante, que bem amassado Junta-se ao belo refogado De modo a ter-se um molho grosso
Que vai de volta ao caldeirão No qual o poeta, em bom agouro Deve esparzir folhas de louro Com um gesto clásico e pagão.
Inútil dizer que, entrementes Em chamas à parte desta liça Devem fritar, todas contentes Lindas rodelas de lingüiça
Enquanto ao lado, em fogo brando Desmilinguindo-se de gozo Deve também se estar fritando O torresminho delicioso
Em cuja gordura, de resto (Melhor gordura nunca houve!) Deve depois frigir a couve Picada, em fogo alegre e presto.
Uma farofa? – tem seus dias... Porém que seja na manteiga! A laranja gelada, em fatias (seleta ou da Bahia) – e chega.
Só na última cozedura Para levar à mesa, deixa-se Cair um pouco de gordura Da lingüiça na iguaria – e mexa-se.
Que prazer mais um corpo pede Após comido um tal feijão? - Evidentemente uma rede - E um gato para passar a mão...
Dever cumprido. Nunca é vã A palavra de um poeta... – jamais! Abraça-a, em Brillat-Savarin O seu Vinicius de Moraes. Petrópolis, 1962.
Escrito por André Luís Câmara às 20h33
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Bandeira é um milagre!

Não sei precisar quando começou meu encantamento por Manuel Bandeira. Lembro de algumas páginas de sua antologia poética lidas na adolescência. Gostava já bastante, mas não acontecera ainda aquele estalo, aquele envolvimento que se sente com um autor que se ama, que quase se torna um amigo. E, no caso dos poetas, há aqueles que sempre estamos por descobrir num verso, num determinado momento da vida em que certo poema nos fala mais alto e pronto: dá-se o tal do encantamento. Bandeira me encanta inteiramente. Não é o poeta de que mais gosto, mal sei eu dizer se há poeta de que mais goste. Gosto de muitos, prefiro alguns, certamente, como Bandeira, por exemplo. O Bandeira parceiro de Jayme Ovalle e Villa-Lobos, Bandeira amigo e confidente de Mário de Andrade, Bandeira do Beco, Poeta do Castelo e, mais que tudo, além de menino do Recife, Bandeira da Rua do Curvelo. Puxa, como eu adoro este Bandeira! Pra quem não conhece, livro que tem que ser lido é A Trinca do Curvelo, de Elvia Bezerra. Foi editado pela Topbooks em 1995. Procurem, vão aos sebos, é uma delícia. E é Bandeira completamente e mais todos que com ele conviveram no período em que morou em Santa Teresa, como a psiquiatra Nise da Silveira e o escritor Ribeiro Couto. Este último, autor do romance Cabocla, que originou a telenovela escrita por Benedito Rui Barbosa. Mas, voltando a Bandeira, livro bonito também sobre ele é Humildade, Paixão e Morte, de David Arrigucci Jr. Há um curta-metragem dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em 1959, que se chama O Poeta do Castelo (na época ele vivia no Edifício São Miguel, localizado no Centro do Rio, próximo da esplanada do Castelo)e que mostra Bandeira em seu cotidiano humilde e encantador. Um poema que me parece exprimir toda a atmosfera do filme e da própria poética de Bandeira é um poema curto, que está no livro Belo Belo, e que, quando me dei conta, já fazia parte de mim. Um poema que hoje considero meu, bem meu, como acontece com outros tantos do mesmo Bandeira. Hoje, que o dia foi chuvoso, me lembrei dele. É o Poema Só para Jayme Ovalle, e que diz assim:
Quando hoje acordei ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando... - Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
Escrito por André Luís Câmara às 22h29
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Além dos sentimentalismos
 Djanira/ Violoncelista
A manhã vai chegando e há muito pra falar além dos sentimentalismos que acabam nos escapando. Sei que a vida é muito mais. Pois é, mas pensei em escrever qualquer coisa sobre Dolores Duran. O amor é mesmo um tema presente na maioria das canções, dos romances, dos poemas. Motivo deve haver. Eu tô meio cansado pra formular frases mais interessante a esse respeito, mas seria bom se pudessem deixar aqui comentários sobre a questão do amor que nos estimula e também nos inutiliza. Claro, há sempre a forma (diferente para cada um) como nos comportamos diante do amor. Mas como reagir diante do que "não tem limite nem nunca terá"? De todo blá-blá-blá em que estas palavras já parecem ir caindo, acho que resta, pelo menos, a constatação de que amar é sempre o risco mais abençoado e desamaparado que corremos e temos que correr. Mas é claro que seria melhor mais lucidez e distanciamento pra tratar desse tema. Enfim, não dá pra disfarçar as conseqüências de um salto mortal. E há que arcar com elas. Em frente! (É, mas Dolores Duran de repente brota no dia mais ensolarado de nossa ilusão...) Alguém aí pode contribuir com palavras que tornem menos inútil essa tentativa de definir a dessarrumação que o amor nos causa? Beijos abraços e carinhos sem ter fim!
Escrito por André Luís Câmara às 07h06
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Poema que uma Maria escreveu pra mim
 René Magrite
Teamo ponto Teamo exclamação Teamo imperativo, afirmativo, futuro do presente, presente do futuro Teamo plural, singular, substantivo e advérbio e intensivo Teamo no planeta, nas galáxias, nas temperaturas dos hemisférios Teamo amando gerúndio dos meus dias Teamo margaridas floridas, murchadas e renascidas Teamo samsara enlouquecida e atormentada Teamo na saída, na entrada, no encontro das despedidas Teamo na lida, na pedra, na íngreme subida Teamo junto Teamo na cantata das separações Teamo na esperança do mundo melhor Teamo no João Gilberto, Teamo nos sinais inexplicáveis Teamo nessa aproximação Teamo na lágrima, no filme, no cheiro do teu cangote Teamo todas as notas, todas as putas, todas as drogas, todas as rugas, Teamo reticências para repetir o infinito
Escrito por André Luís Câmara às 21h25
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Margarida da lua cheia
 Erico Santos/ Margaridas
Você quer ser inconstante feito o mar e hoje a noite tem lua cheia, meu afeto tropeça e vagueia por campos de margaridas a despetalar.
Escrito por André Luís Câmara às 22h39
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Dois pontos abertos
 Marc Chagall/ Nu em frente à janela
Foi a última vez que se viram. Enquanto subia os degraus da escadaria que conduzia à ladeira do convento, essas eram as palavras que latejavam em sua memória. Os degraus, a cada dia mais decorados com ladrilhos, constituíam um mosaico único no mundo, obra original de um artista castelhano há muitos anos radicado por aqueles antros. E pensava no último momento em que haviam se olhado, depois transformado por ela em parágrafos secos, cortantes, num conto em que ele reconhecera e admirara todo o estilo dela como escritora, já depois de estarem separados. A última vez que se viram ainda ia em seus olhos degraus acima, enquanto passava pelos cachorros vira-latas. Voltava ao bairro, naquela tarde de domingo, dia em que diversos ateliês estavam abrindo suas portas a visitantes curiosos. Na certa, reencontraria conhecidos, beberia uma cerveja. Ao fim da escadaria, chegou ao muro do Convento das Carmelitas Descalças, construído em meados do século XVIII. Aquele fora seu caminho diário até conhecê-la. Tantas vezes planejaram que, naquele bairro, viveriam juntos numa casa sempre aberta aos amigos. Até mesmo a decisão de ir morar em Teresópolis ela pusera de lado para acompanhá-lo em sonhos. E de tudo restou apenas o devaneio sem segurança nem futuro. Passou pelo edifíco construído no terreno onde ficava a casa em que morou Mário de Andrade – por apenas cerca de sete meses, era o que ele gostava de repetir pra ela e ela sorria. Depois, virou à direita e seguiu rumo aos trilhos do bonde e passou pelo edifício onde ficava a casa em que morara Manuel Bandeira. Tinha uma amiga que escrevera um belo livro sobre o cotidiano de Bandeira quando este morara ali. Elas tinham que se conhecer, iam ter afinidades, na certa. E ela sorria e respondia que ele era: tudo. Entrou pelos ateliês, ia vendo as coisas sem muita atenção. Sem que quisesse estar ali só por estar, era o que de melhor pudera escolher para não sair andando a esmo. Andara já desde o final da manhã pela orla, pela Lagoa, até resolver ir àquele evento que combinava com o que mais o estimulava: arte, portas abertas, encontro na rua, esquina. Enganaria a si mesmo se admitisse que não tinha a leve (mais que isso, até!) vontade de que, ao acaso, voltassem a se encontrar ali, no bairro, na esquina onde ela o reconhecera da época da faculdade. Sem ter como almoçar uma refeição mais completa (ela bem que lhe dissera que não gostava do modo como ele ia levando a vida), queria mesmo era beber uma cerveja naquele armazém agora reformado. E, ironias à parte, exatamente na esquina onde se encantara por ela. A tarde avançava mais animada, chegaram conhecidos, amigos, alguém o chamou para almoçar e ele mentiu que já tinha comido. Restava o dinheiro da volta pra casa e pra mais uns dois dias pra condução até que conseguisse algum emprestado. Dentro de uma semana, receberia o salário e, quem sabe, ia conseguir guardar dinheiro. Bom, tinha ainda que comprar uma cama, um armário, talvez recomeçar a pagar suas dívidas... A tarde avançava. Nem tudo havia saído errado e conquistara, sim, coisas importantes. Mas não tinha como garantir futuro a ninguém nem a si próprio. Deu vontade de fazer um samba. Mulheres lhe sorriam, os cabelos começando a se tornar mais grisalhos talvez lhe conferissem um charme diferente. Teve quase dificuldade em conter a gargalhada ao começar a imaginar um conto em que todas as mulheres fossem, numa volúpia de se tornarem ruivas, pintando os cabelos de vermelho, vermelho, só havia mulheres de cabelos vermelhos e todas mediam um metro e cinqüenta e cinco. Parou por aí. Afinal, começava a se achar chato, monocórdio. Ele era muito sofredor, ela lhe dissera. E agora sofria, sim, a ausência dela. Viu o ensaio de uma peça de Dario Fo dirigida por uma colega de quando fizera o mestrado em literatura. Foi a uma exposição de fotografias de outras duas amigas, uma delas sobrepunha poemas de Borges a imagesn de lírios. Mulheres, que mulheres maravilhosas e potentes! Devia agarrar qualquer uma em qualquer esquina. Ia chegando a noite e ele sentiu que era hora de se desvencilhar da forma em que moldara sua dor. E foi andando, descendo, ladeira abaixo, abaixo. Um ponto final. Um ponto. Estava mais do que na hora de se despir de seus pretéritos, fossem eles perfeitos ou não. E foi descendo, indo embora. Já não morava ali. Pra lá não fora viver com ela. Agora ia só. Ladeira, ladeira. Abaixo. No meio do caminho, sabe-se lá de que casa perdida no tempo, saía aquela voz com jeito de vinil meio mofado, mas ainda vibrando, grave, inesquecível, a voz de Dick Farney: “Eu sei que outro amor posso ter/ E um novo romance viver/ Mas sei que também/ Assim, como tu, mais ninguém”. Apressou o passo e considerou o ridículo que se anunciava a quem o olhasse: um homem de quarenta anos, descendo a pé a ladeira, aos prantos, desaconhegado, ao anoitecer de um domingo desalentadoramente inútil. E fez um esforço desmedido querendo retomar a idéia de colocar um ponto no sofrer em que se ia viciando. Chegou ao final da ladeira, desistiu do ônibus. Iria continuar a andar até em casa, quem sabe. Andar, andar. Pra trás Dick Farney, a fossa, o samba-canção, o bolero. Se ao menos fizesse dança de salão! E foi andando e vendo que o ponto final era pra ele ainda impossível. A exclamação lhe parecia agora exagero, assim como a interrogação uma dúvida idiota. Com a vírgula continuaria andando e haveria um momento em que teria que parar com aquilo. As reticências também só adiariam as coisas. E então enveredou pelos dois pontos. Lembrou que havia qualquer coisa semelhante num livro de Clarice Lispector. Mas não se lembrava propriamente como estava em Clarice e, assim, poderia usar essa idéia dos dois pontos pra definir o que queria exprimir. Foi a última vez que se viram, lembrou. E lançou sobre a angústia os dois pontos. O que viesse depois o encontraria de palavra mais experimentada, de sentimento cerzido.
Escrito por André Luís Câmara às 22h39
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