Samba-choro pra Santa Teresa
 Foto: Emilio Garde
Salve, antigo Morro do Desterro, me ensina o segredo de tua vida à parte! Santa Teresa, guarda meus erros, de portas abertas pra arte.
(Hotel Santa Tereza, agosto de 2003)
Escrito por André Luís Câmara às 20h20
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A arte desafiadora de João Carlos Martins
 Foto: Agência Estado
A determinação, a teimosia, a nobreza com que João Carlos Martins dribla as adversidades da vida em nome do que de melhor tem a nos dar - sua música – comovem e estimulam a reverenciar e a dar graças por estarmos vivos para procurar, aprimorar, tentar, exercitar, ousar, acreditar, fazer, ir em frente e, principalmente, viver, semear, doar. Em suas recentes entrevistas, como a que concedeu a Roberto D’Ávila, em programa que acaba de ir ao ar pela TVE, é impossível que se deixe de ressaltar toda a sua coragem. Tendo perdido o movimento das mãos, sendo ele, internacionalmente, um dos mais respeitados pianistas, acabou por enveredar pelos desafios da regência. O Maestro Antônio Carlos Martins, que chegou a ser injuriado e quase preso, por apoiar financeiramente a campanha de Paulo Maluf, cerca de 15 anos atrás (fato que hoje confessa ser um de seus maiores erros), é uma das mais extraordinárias expressões da nossa cultura. É um recriador de Bach, esse gênio maravilhoso e imortal, tão imprescindível para quem ama dar graças à vida. O filme sobre o maestro e pianista, dirigido pela cineasta alemã Irene Langermann (A paixão segundo João Carlos Martins), certamente fará com que João Carlos Martins se torne mais conhecido de nós todos, ele que é uma das mais aclamadas personalidades do mundo da chamada música erudita. Bravo, João Carlos! Viva Bach! E viva tua perseverança e tua integridade. Um homem que não se deixa consumir pela própria tragédia e não sucumbe aos desastres de seus dramas pessoais. Um homem que se alarga e se engradece e se refaz, a cada dia, para nos dar sua música. É preciso agradecer a João Carlos Martins, é preciso enaltecê-lo, é preciso amar sua arte e deixar entrar luz na escurez dos nossos sonhos, tesão nos abismos da nossa vontade. Bravo, João Carlos! Que gozo sublime poder receber o teu Bach e dizer à vida: Amém!
Escrito por André Luís Câmara às 00h20
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Sábado é dia de choro em Laranjeiras
 Choro na Feira, grupo que há quatro anos alegra as tardes de sábado em Laranjeiras (Da esq. para dir. Atrás: Matias, Marcelo, Franklin Na Frente: Bilinho, Ignez e Clarice)
Franklin da Flauta me escreve e gentilmente me cumprimenta pelo artigo sobre o Choro na Feira que escrevi neste blog dias atrás. E discorre sobre aspectos deliciosos da letra de Aldir Blanc para o choro Santo Amaro (melodia de Franklin e Luís Claudio Ramos). Por exemplo, no trecho em que a letra fala que "o rosto dela vela o Rio de Janeiro/ como a Virgem do Outeiro guarda o Ameno Resedá", além de ser uma referência explícita ao lendário rancho carnavalesco Ameno Resedá tem o seguinte significado: "Isso quer dizer que quando o rancho Ameno Resedá foi extinto, os estandartes, prêmios, livros etc foram confiados à irmandade de N.S. da Glória do Outeiro (tem outra Glória: a do Largo do Machado). Se tiver tempo, leia os livros do Jota Efegê. São geniais, históricos e pitorescos. Grande abraço. Franklin"
Como bem recomenda Franklin, Jota Efegê, uma legenda na memoralística da música brasileira. é obrigatório. Neste sábado tem mais Choro na Feira, ali na General Glicério, em Laranjeiras. Programa ideal pra quem gosta de se encontrar na rua pra ouvir boa música. Todo sábado, a partir das 13h. Vejo vocês por lá. Beijos, abraços e carinhos sem ter fim.
Escrito por André Luís Câmara às 21h20
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Os azulejos do Salete
 Vista da Tijuca (Foto de Daniel Carneiro - Arquivo do site Alma Carioca)
Nem se suspeita, olhando a Tijuca do alto, do que ela ainda reserva de encanto e de sabor. Fazia muito tempo que eu queria ir ali, adentrar o pequeno salão e me sentar a uma daquelas mesas mais ao canto, bem ao lado da parede. Das empadas, já havia provado, por duas vezes em que ficara na calçada, em frente à porta do estabelecimento que oferece uma memória de histórias, encontros, solidões, desde sua fundação em 1957. Na Rua Afonso Pena, durante a hora do almoço, experimentei uma alegria das mais saborosas ao me sentar à mesa do Salete e me deliciar com um risoto de camarão. Ao lado de colegas de trabalho, sem o costumeiro chope que me acompanha pelos botequins (tendo em vista que me encontrava em hora de batente) me veio um instante de comoção ao me dar conta de que há todo um Rio de Janeiro perenemente solar, generoso, peculiar, surpreendente, inesquecível que transborda das mesas de um botequim. Mais fixamente me detive fitando a parede de azulejos azuis e brancos. Acima, um mosaico nos ladrilhos me remeteu ao ambiente de cozinha de casa (apartamento no meu caso, sempre, infelizmente!) em que se morou na infância ou em que já se esteve visitando a avó, a tia, um amigo da família, um parente distante, uma pessoa gravada na lembrança.Uma parede de azulejos que parece proporcionar o cenário para o reencontro consigo mesmo. São tantos os freqüentadores que há anos repetem a rotina de se sentar ali, comer empadas (as de camarão e de palmito, Meu Deus!) e foram tantos os que pelas redondezas cresceram, casaram, há os que até avôs e avós já são e continuam a ir ao Salete, comentar qualquer coisa de mais banal ou qualquer coisa de especial, porque o Salete convida, mesmo, a esse instante de fecundação das afinidades. E, sendo botequim atual, com toda a história marcada em seus azulejos, é certo que, durante o almoço, apesar do risoto, apesar dos sorrisos, a conversa acaba por descambar no medo da violência, na degradação da cidade, nos suspiros de saudade pelo Estado da Guanabara. Impossível querer negar toda essa realidade obscura, medonha, infeliz. Mas o Salete, por um momento fugaz (Ah, doce mistério da vida feita de fugacidades!) parece distribuir um ungüento aos que carregam a dor de estar insatisfeitos, perplexos, aturdidos, desencontrados. E de seus azulejos, de sua cozinha, de seu balcão salta uma sensação que é quase paz, é quase constatação de que a vida vale a pena. Precisei de cerca de 40 anos para, finalmente, me sentar a uma mesa do Salete. Me deu gosto-de-quero-mais. É provável que lá eu volte ou, quem sabe, jamais o faça. São tantos os descaminhos e os rumos indesejados... Mas sei que o Salete existe e eu consegui me criar a oportunidade de olhar seus azulejos. Que venha o futuro, a explosão (implosão) desta cidade ainda magnífica, quem sabe hão de querer demolir o Salete, haverá quem poponha seu tombamento, o apego ao dinheiro, ao progresso, à banalização da modernidade talvez se eternize e tudo irá desaparecendo. Mas este instante no Salete ninguém jamais há de me tirar. Isso, eu sei, é o que tenho de precioso e levarei comigo.
Escrito por André Luís Câmara às 20h34
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A liberdade de Rachel de Queiroz

Em dois dias, Rachel de Queiroz foi citada para mim por pessoas diferentes. Eu confesso que sempre a respeitei por ter sido a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, sei da importância de O Quinze, mas é uma escritora que ainda estou por descobrir. Olha, ela é uma autora bastante interessante. Mais até que isto. A crônica que reproduzo abaixo, escrita por ela em 1949, é quase o que hoje seria chamado de literatura feminina, sem que haja qualquer pretensão de segurar a bandeira do feminismo. Rachel se refere ao "homem que ama" e fala em romper com um mundo de aparências numa atitude que, hoje, poderia ser encarada como moderna. Ou, melhor dizendo, libertária, íntegra. Deixemos, no entanto, que a própria Rachel nos fale, em palavras de 55 anos atrás, o que ainda hoje parece ter o sabor de quem deseja ser fiel a si mesmo.
Ilha, dezembro de 1949. Talvez o último desejo
Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
Sim te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!
Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.
Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.
* Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.
E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?
O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!
Rachel de Queiroz
Escrito por André Luís Câmara às 20h48
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Viva Sérgio Augusto e a verdade das paixões!
 O crítico Sérgio Augusto, no lançamento de seu livro sobre o botafogo, recebe o cumprimeto de Olívia Hime
Acabo de assistir na TVE ao programa A Verdade de..., que desta vez teve como convidado o jornalista e crítico cultural Sérgio Augusto. Gostei bastante de algumas questões desenvolvidas, como era de se esperar de alguém como Sérgio, um jornalista singular, uma referência, mesmo. Mas a segunda parte do programa foi quase que inteiramente só sobre futebol e especialmente sobre o que ele acha do botafogo. Claro, sei, sou flamengo, embora há muito tempo nem saiba ao certo quem são os jogadores de hoje. O que me parece é que um programa que poderia aprofundar mais temas tão importantes para o debate cultural acabou por ficar muito diluído em papo sobre futebol. E, embora também goste de futebol, mesmo não sendo torcedor fanático, creio que muito mais haveria a se discutir, não estivesse o entrevistado lançando livro sobre o botafogo, seu time querido do coração (e que é também o time dos meus filhos, por sinal). O livro deve ser realmente bom, tendo sido escrito por Sérgio Augusto, mas fiquei querendo mais da verdade dele que não apareceu, presa à sombra do futebolismo. Ele chegou até a citar, como exemplo de dramaturgia voltada para o futebol, Chapetuba Futebol Clube, embora tenha deixado de mencionar o nome do autor, Oduvaldo Vianna Filho (um botafoguense, inclusive). E o que Sérgio tem a dizer creio que combina inteiramente com o espírito desta esquina. Valeu por ele, valeu principalemnte pelo início do programa. Os botafoguenses devem ter achado tudo muito bom. Mas a verdade é que Sérgio Augusto tem bem mais a dizer. Eu, pelo menos, que tinha parado para assisti-lo como quem quer aprender e apreender tudo que puder, cheguei até a pegar um papel e uma caneta pra ir anotando, já que, tendo chegado cansado, receei esquecer das coisas. Mas depois que tudo enveredou pelo futebol, nem anotei nada. Se ainda ele tivesse falado mais de Chapetuba ou do Garrincha... Achei interessante ele dizer que Pixinguinha e Romário pertencem a uma elite. Mas talvez esteja tentando uma desculpa pra definir pra mim mesmo que estou liberado pra falar do que eu quiser, escrever os textos que tiver vontade, sem pretensão de ser profundo nem grande pensador. Se Sérgio Augusto, de quem se espera uma aula sobre questões culturais (eu sei, futebol também é cultura, mas...), prefere falar sobre sua paixão pelo botafogo, eu vou falar sobre minhas angústias e meus desencontros no amor. Viva Sérgio Augusto! Viva o futebol! Viva a paixão!
Escrito por André Luís Câmara às 22h08
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Para sempre Drummond
Eu cheguei hoje abro meu e-mail logo cedo e havia esta mensagem do meu filho, de nove anos (a mais velha tem dez). E me alegrei com as palavras do sempre imprescindível Drummond!

Escrito por André Luís Câmara às 09h08
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O homem por trás do cavanhaque e dos óculos

Fora professor no colégio em que eu estudara, cerca de 22 anos atrás. Eu já o tinha visto ali cantando e tocando durante algumas noites, mas jamais adivinhara o homem por trás do cavanhaque e dos óculos (por trás dos óculos e do bigode, diria Drummond). Fitei-o por um tempo, parado a um canto do botequim. E logo me transportei, no tempo, à sala de aula do científico e o vi a comentar comigo questões de literatura, pelas quais já me interessava. Ele mesmo foi responsável, certa vez, por levar a uma festa do colégio um cunhado de Paulinho da Viola, que tocava pandeiro. Lembro que, naquela tarde de sábado, por volta dos meus 16 anos, já estava em mim o que hoje me permite ser reconhecido como sou: um lírico. Lembro que, naquela mesma festa, procurei me aproximar da menina, colega de sala de aula, que eu tanto desejava (amava?). Mas ela se desvencilhou e apenas me sorriu dizendo que nossa relação era só amizade. Podia até ser uma coisa maior, importante, mas só amizade. O beijo que não ganhei dela naquela tarde me entristeceu e atirei longe um copo de chope (era de plástico e já havia pouco chope, nada de grande transtorno). Muitos outros desencantos iriam se suceder. Muitos chopes eu viria a derramar. Mas me lembro até hoje de Paulo, o professor, me olhando ternamente e dizendo: “André!” Como que a me chamar a atenção para não me prender a bobagens e a sofrimentos estéreis. Só hoje posso entender aquele chamado assim tão completamente. Contei tudo isso a ele ontem numa roda de samba no Bip-Bip, o já lendário bar do Alfredinho. Foi maravilhoso! Bebi, cantei e terminei a noite ganhando um beijo delicioso de uma morena encantadora. Já não posso mais ser triste por não ser beijado. Amei mulheres que me amaram. De todas as maneiras. Nem sempre estive lúcido o bastante para me manter sereno diante da separação. Mas continuo fiel à mulher amada e confio que a fidelidade pode e deve, sim, ser erótica e sensualizada. Talvez por isso quando o amor acaba ou quando parece que acaba eu fique ainda tão desolado. Porque gosto dessa entrega sem a qual, para mim, o jogo do amor fica sem graça. O chamado de Paulo há de estar sempre a me trazer para a superfície dos meus desesperos. E, mesmo me sentindo ferido pelos desastres de mais uma paixão, pela insuficiência do dia, “ninguém vai me acorrentar/ enquanto eu puder cantar/ enquanto eu puder sorrir”.
Escrito por André Luís Câmara às 21h09
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Dica de leitura
Quem quiser acessar alternativas interessantes para leitura na internet pode entrar no endereço www.paralelos.org O conto A roupa de Mariana, de Ana Letícia Leal, se encontra disponível por lá. Confira! E quem foi à Primavera de Livros? Parece que estava bem legal, com opções variadas e até preços atraentes. Mas acho que bom mesmo é perambular pelos sebos da cidade em qualquer estação. Que venha a primavera!
Escrito por André Luís Câmara às 17h09
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Setembro
 Abapuru - Tarsila do Amaral
Já deletei seus e-mails Me mandei pra me esquecer em Terê Só mesmo em seus devaneios Eu teria nascido toda pra você Páre de entrar no meu blog Vá seu caminho sem mim Não quero que você me toque Sua insegurança é ruim Você diz que compreende meus mênstruos Mas, no fundo, me deixa meio excluída Nosso amor tão intenso Ficou, de repente, assim sem saída Eu sei, sou mesmo de lua Mas agora vou descolar de você Nunca mais serei sua Nunca mais (e por quê?) Você se julga sensível Parece conhecer uma mulher Mas fica tão previsível Num dia-a-dia sem graça qualquer Finge ter alma feminina Pensa que escreve o que eu sinto A coisa mais cristalina É que não te amo (e minto?) Minha cabeça girando, girando Num carrossel de receios de mim Ou eu estou me enganando Ou ainda não chegamos ao fim Você desconcerta aqui dentro Você me faz tanto bem, tanto mal Guarde meu beijo, é setembro Primavera é uma espécie de carnaval!
Escrito por André Luís Câmara às 12h44
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A magia do Choro na Feira
Retrato a óleo de Franklin da Flauta Israel Pedrosa (1967)
Não sei como alguém pode ligar a cobrar antes das seis da manhã de um domingo. Na certa, era algo muito importante e, também, engano. Acordei com o telefone tocando, mas logo desligaram ao ouvir a mensagem da secretária eletrônica. E perdi completamente o sono, pensando em quem poderia ser a uma hora dessas... E então lembrei como seria bom se hoje também tivesse o Choro na Feira. Estive lá ontem, em Laranjeiras, como quase todo sábado, saudando essa iniciativa gloriosa de Ignez Perdigão. Ela consegue, há quatro anos, reunir ao seu cavaquinho a flauta de Franklin, o sax de Marcelo Bernardes, o violão de Bilinho Teixeira, o pandeiro de Clarice, o contrabaixo de Matias, o canto de Mariana Bernardes e a canja de quem mais for chegando. Eu adoro ir lá! E, agora, tendo perdido o sono numa manhã fria e nublada de domingo, fico pensando o que haverá pra fazer sem ter o Choro hoje. Claro, há a possibilidade de um cinema (gostei do prêmio a Woody Allen entrgue por Almodovar), andar pelo calçadão, ler, escrever, e talvez o Bip-Bip à noite, mas sinto que o Choro na Feira é que poderia fazer valer este domingo. Às vezes, a gente pensa até que essa rotina de todo sábado, há quatro anos, acaba por desgastar a todos: músicos, público. Mas é sempre tudo tão inusitado, mágico até, que os instrumentos acabam sempre por transformar as nossas dores, nosso cansaço, nossa mesmice. Semanas atrás, ventava e apenas o Franklin da Flauta estava por lá. De repente, aparece Robertinho Silva, um mago da percussão, e os dois improvisam de flauta e tamborim (sim, nada de pandeiro, tamborim, mesmo) uns três choros que fizeram muita gente babar de tanta delícia. Um momento que se vive sabendo que é história pra depois ficar contando. Já fui pro Choro na Feira a pé, estivesse morando em Santa Teresa ou em Botafogo. Agora, aqui em Copacabana, fica um pouco mais longe. (Caramba, como tenho me mudadado de lugares e de amores desde que o Choro na Feira existe). Mesmo assim, ir a pé até lá é bastante gratificante. Só para ouvir música. Claro, podendo depois dar uma passada no Serafim, pedir ao Juca aquele chope no balcão e se sentir de alma renovada. Hoje eu queria que tivesse o Choro na Feira. Vez por outra, eles estão se apresentando em casas noturnas da Lapa, como Carioca da Gema e Rio Scenarium. Já fui conferir e é maravilhoso. Mas, na feira de Laranjeiras, nas tardes de sábado (antigamente começava de manhã) é que é realmente um instante inesquecível. Poder contar com um presente desses continua a fazer do Rio uma cidade encantadora, apesar dos pesares. Manuel Bandeira conta em Itinerário de Pasárgada que nada havia que ele gostasse mais do que de música. Ontem, enquanto eles tocavam Vou vivendo, de Pixinguinha, lembrei de versos de Fernando Pessoa que parecem exprimir o que sinto agora neste amanhecer de um domingo nublado: “Qualquer música, ah, qualquer.../qualquer coisa que não vida!/Jota, fado, a confusão/ Da última dança vivida.../ Que eu não sinta o coração!”
Escrito por André Luís Câmara às 07h46
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