Silêncio para redescobrir Aldir Blanc

João Bosco e Aldir Blanc em meados da década de 1970
Foto: Cíntia A. Prado
Talvez eu nunca tenha ficado tanto tempo sem ouvir música em casa. Há meses, meu aparelho de CD está escangalhado. O toca-discos também se foi e meu desejo de ficar curtindo os discos de vinil teve que ser adiado. Claro, há um rádio, às vezes exaustivamente escutado, mas nem chega aos pés daquele prazer tão íntimo de colocar um disco, um CD. E eu nunca fui de me apegar a fitas-cassete.
Tenho lacrados o novo CD de Marcos Souza e o mais recente CD de Mônica Salmaso. O primeiro, traz a trilha sonora que Marcos compôs para o documentário sobre Evandro Teixeira, ícone do fotojornalismo. Fico adivinhando as maravilhas que devem haver ali saídas dos mesmos dedos desse excelente músico e compositor, que integrou o Conversa de Cordas, conjunto instrumental que durou e gravou bem menos do que merecia a reunião de seus talentos (o violinista Keka Vieira morreu precocemente. Mas Marcos continua aí, vibrante, organizando o Rio Sesc Instrumental e compondo, compondo coisas bonitas. Ficou chateado quando comentei que ainda não ouvi seu CD e disse pra eu procurar ouvi-lo em qualquer lugar. Mas sei que esse momento vai chegar e preciso ter essa paciência da espera.
Quanto ao de Mônica Salmaso me veio de presente de um amigo, que me dera um CD, que eu já tinha, sobre Mário de Andrade, comprado na Toca do Vinícius. A fim de fazer a troca, fui há dias na simpática loja de Carlos Alberto Afonso, em Ipanema, e acabei optando pelo CD mais recente de Mônica Salmaso. De alguma maneira, hesitei em adquirir o CD de Monica, que me lembrava dias vividos em estado de separação. Mas me decidi por ele e assim aguardo o momento de poder ouvi-lo em casa, como coisa minha, mas que seja também partilhada com outros.
E nesta situação de estar sem ouvir minhas músicas é que me surpreendi hoje no ônibus pela manhã, na ida para o trabalho, a sentir tantas canções pulsando em minha cabeça. E, mais exatamente, pensei em Aldir Blanc, letrista, poeta, por quem tenho uma grande admiração. Talvez por Amigo é pra essas coisas, composta com Silvio da Silva Jr, talvez pelas obras-primas com João Bosco (“o amor é demais/ me fez quebrar o espelho/ me fez dobrar os joelhos...”), talvez pela suas parcerias iluminadas com Guinga e Moacyr Luz, sei lá, Aldir nos dá tanto e tem esse encantamento pela Tijuca que só agora eu começo a descobrir. Ele quer ser e é o cantor dessa região em torno do bar da D. Maria, que tornou um ponto de encontro na Muda. E eu nunca estive lá! Mas irei, não abro mão desse desejo.
Foi também ele quem colocou letra no belo choro Santo Amaro, de Luiz Claudio Ramos e Franklin da Flauta: "Eu ia a pé lá da Ladeira Santo Amaro/ até a Rua do Catete num sobrado onde você residia/ E te levava pra um passeio em Paquetá...". Aldir Blanc merece mais tempo e espaço pra que se fale dele com a devida atenção ou, melhor dizendo, emoção. Porque não falo de me emocionar num sentimentalismo primitivo, vulgar, emburrecedor. Quero me comover com a beleza do apuro de casar letra e melodia, como tão bem faz Aldir. Ainda escreverei sobre ele qualquer coisa que valha a pena.
Escrito por André Luís Câmara às 12h13
[]
[envie esta mensagem]
|
Ana Martins
 Ana Martins. Foi o nome que me responderam quando perguntei quem estava cantando no CD que suavizava de encanto a sala à espera da feijoada naquele domingo chuvoso. Meu amigo fazia quarenta anos e a voz de Ana Martins nos trazia Chico Buarque, Tom, Vinícius, Zé Kéti. Não por acaso, na capa do CD, a cantora está em frente ao prédio na Avenida Atlântica em que morou Nara Leão. Ali ficava o apartamento das reuniões da Bossa Nova. No acompanhamento, um molho muito bem temperado de ritmos e harmonias de Jorge Helder, Robertinho Silva, Tutti Moreno e, claro, a mãe Joyce. Porque Ana Martins é a Ana cantada em Clareana. Muitos devem se lembrar da canção. Mas Ana soube ouvir e aprender o que podia de Nara, de Elis, doutoras em escolha de repertório e de desafios. Não nega que seja mesmo cria da mãe. Mas Ana é bem ela. Quase fui lhe dizendo tudo isso. Porque ela também estava lá, na sala. Mas não pude conter o entusiasmo nem mesmo na frente de seu marido. Acho que ele entendeu, espero. “Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios”... há tempos não ouvia isso do Chico, cantado pelo próprio autor em seu primeiro LP, lançado em 1966. Ana também apresenta um belo encadeamento das canções Lamento do Morro, de Tom e Vinícius, (“Mulher amada/ destino meu/ é madrugada/ sereno dos meus olhos já correu”) e Anoiteceu, de Francis Hime e Vinícius (A luz morreu/ o cé perdeu a cor/ anoiteceu/ no nosso grande amor”). Mas quem quiser encontrar o CD vai ter que esperar. Foi somente lançado no Japão. É, japonês agora sabe tanto de MPB quanto de sushi. Resta-nos a casa dos amigos afetuosos que nos proporcionam instantes iluminados, ainda que fugazes, antes de nos perdermos em conversas cotidianamente mesquinhas como violência, a vida prática, etc. Viva Nara, viva Elis, viva Joyce. E agora viva Ana Martins! Acho que, além de comida japonesa, tá na hora de também entrar mais nos nossos costumes a música que se ouve no Japão. Música com sabor de feijoada e casa de amigo. Encontro vocês qualquer dia no Choro da Feira, em Laranjeiras. Saravá!
Escrito por André Luís Câmara às 22h30
[]
[envie esta mensagem]
|
Bobagem
 Cena de Filme de amor, de Júlio Bressane
Bobagem me ligar assim, melhor nem procurar explicação, se era pra só dizer que não valia mais tentar e, enfim...
Bobagem me ligar, então só pra exibir fugaz definição, eu tenho intimidade com a solidão, mas vem sua voz, em off: fim.
Resta cicatrizar meu coração.
Escrito por André Luís Câmara às 22h29
[]
[envie esta mensagem]
|
Convite para uma esquina
Eu quero interferir na sua vida. Sem o blá-blá-blá eleitoreiro, sem promessa de nada, sem Igreja alguma. Ou talvez até com tudo isso. Já quis me definir como escritor, mas tenho feito pouco, muito pouco pra me reconhecer como tal. Peguei um ônibus na madrugada que tinha um sanfoneiro tocando. Bala perdida em volta, o cinismo, a guerra, a competitividade, o desencontro. E o sanfoneiro tocando e sorrindo. Pedi pra ele Que nem Jiló, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. E lembrei que o remédio é mesmo cantar. Quero reunir gente numa esquina. Não sei ainda onde nem como será. Sei que é uma esquina pra onde estou indo agora, levando Macunaíma e A meditação sobre o Tietê. Não tenho a menor vontade de me perder na nostalgia, na melancolia por um passado que me asfixie. Quero redescobrir o tempo. Romântico, sem saber lidar com o dinheiro, neurótico e até infantil. Mas já tenho cicatrizes, cabelos brancos, amores desfeitos, dois filhos lindos, um recente encantamento pela Tijuca e nada a oferecer além de uma paixão às vezes inútil e uma obstinação em reafirmar o compromisso com o sonho. Sou eu assim, mas não vou estagnar. Gostaria de encontrar com você nesta esquina e celebrar a arte do encontro. Se vai ser através da internet, de cartas, de bares, sei lá. Sei que há uma esquina e amanhã estarei morto. Antes, porém, devo a mim mesmo esse encontro. Se você tem vontade de passar por esta esquina, me avise. Não vamos nos perder em exercícios de ironia. Vamos, antes, procurar afinidades e o entusiasmo de continuar a acreditar na beleza. Quero me vestir de futuro do presente num gesto infinitivamente pessoal. Mas ser para e com o outro, reiventando um espetáculo de gratuidade. Já me frustrei demais com expectativas idealizadas. Quero agora arcar com as conseqüências do risco, conviver com o erro. Experimentar! Estou indo pra esquina e levo Macunaíma. Um excelente dia pra você. Viva a vida! Viva o Brasil! Queria mesmo interferir no seu caminho. Estou numa encruzilhada em que passa tudo isso de que falam os jornais, mas tem também um sanfoneiro que toca Que nem jiló. O remédio é cantar. O Rio hoje amanheceu cantando. Dentro de poucos dias virá a primavera. Eu estarei na esquina com Macunaíma e a alegria de readquirir a potência de engravidar o instante. Beijos e abraços e carinhos sem ter fim!
Escrito por André Luís Câmara às 22h24
[]
[envie esta mensagem]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
|
 |

|